Saramago


Calaram-se as letras, abriram-se paginas, agitaram-se ideologias.
No coração de quem sentiu, fica um vazio cheio de grandes coisas, ditas pela ponta dos dedos num pedaço de papel.
Na voz de um menino da Azinhaga, ouvia-se a pureza de um coração sentido, cristalino como a água que banha a ilha do seu refugio.
Ouvia-se um grito no deserto de vozes dissidentes, simplesmente porque a voz não pode ficar calada.
No gesto de vazar a agua do mar a balde furado, de cobrir o sol com uma peneira nas mãos mal cuidadas do sabujo, teu reflexo de luta contra uma classe privilegiada que era a tua, valeu-te o carinho e o amor de quem a tua voz abafada tudo ouvia, valeu o sentimento profundo do teu dever cumprido perante um povo que te deixou ir para “A Casa”, onde letra a letra fizeste dos leigos sabedores das hipocrisias de um mundo decadente, espicaças-te ideologias de quem se diz dono da razão, tiraste o altar a santos do céu para arderem no inferno.
Tua voz tão transparente, era dita de sabedoria, reflexo de uma mente sã, cultivada desde as margens do Almonda á ilha do Genovês.
Através de tuas mãos nasceu a paixão, entre Blimunda e Baltasar, entre o desejo carnal do divino e Madalena, que ninguém quer aceitar, entre a cegueira e a vontade de ver, nasceu um Alentejo lutador, um traidor marcado, uma cidade entregue a si, e uma morte que desistiu de viver, mas que ao acordar te levou, deixando-nos órfãos das letras que jamais se renovarão.
Com aplausos te brindamos na morte, com cravos e palavras a lembrar que o homem não esquece o calor da liberdade que soubeste apregoar…
E vás para onde fores, tuas cinzas irão brilhar como estrelas, na noite mais escura, iluminando tuas letras deixadas em papel,recordando memórias de um ser imortal…

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