Baú

Subi ao sótão, pé ante pé, como se o chão se fosse partir,
como se o desabar do mundo fosse eminente…
Subi na escuridão de um mundo esquecido, arrumado num canto
com cheiro a bafio…
Meus olhos na ponta das mãos, meu coração aos pés por ter
cedido á saudade, por ter quebrado á tentação…
Proibi-me de aqui voltar, de procurar o tempo que já passou,
buscar recordações transformadas em pó, escondidas num baú na esperança que o
esquecimento as leve…
Mas as minhas mãos já vão abrindo o que memoria quer esquecer,
meus olhos brilham, meu coração vacila, viajando para alem de tudo o que fui,
de tudo o que vivi…
Um oceano imenso mergulha em mim, fascínio e deslumbramento,
na mais fantástica das aventuras, onde fui rei e senhor, não dos sete mares,
mas do mar que abracei, que beijei e amei…
Montanhas crepitantes, de trilhos imensos, tendo o céu como
o topo e as nuvens como um tapete de algodão imenso estendido aos nossos pés,
transformado em fogo num por do sol sublime…
Vulcões adormecidos de pé, crateras banhadas pelas águas
mais cristalinas, onde banhei o meu corpo, onde lavei a minha alma, o meu ser…
A baía das Baleias á porta do meu abrigo, com o pico dos
picos vigilante, com o som do mar como tic tac de um tempo que desejei parar…
Mas ele não parou!
Foram imensos os ventos, vastas as aguas, deveras as
angústias, por cada vez que cruzei o mar em busca do encanto pintado de um
verde sublime, embora de azul vestido, por cada sonho sonhado a pensar num
amanhã que foi pesadelo…
Os abraços sentidos, agora esquecidos, sorrisos gravados no
registo de uma foto, olhares cúmplices que se perderam num ultimo gesto de
despedida, vozes que já esqueci, mas de rostos que irão permanecer na minha
mente e dentro deste baú que fecho e tranco a cadeado…
Dos meus olhos brota uma lagrima que teima em querer-se
soltar, mas não… Não voltarei a deixar esse mar salgado de lagrimas derramadas,
expandir-se para além das paredes do baú que deixo esquecido no sótão na
esperança que o tempo o transforme em pó e com ele a saudade que carrego…
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